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Temporada 1 · Episódio 05 · 7 min 04 s

Nada é verdadeiro,
tudo é índice

Índices físicos do solo. Um pedaço de solo é grão, água e ar, e tudo o que a geotecnia diz sobre ele vira relação entre pesos e volumes. O episódio apresenta o modelo das três fases, mostra por que nenhum desses números pretende ser verdadeiro e quais deles o laboratório consegue medir diretamente.

EP05 · Índices físicos do solo · Série SUBSOLO | Damasco Penna

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Em três pontos
Transcrição narrada

O episódio em texto

Texto integral da narração do episódio. Clique no tempo para assistir ao trecho correspondente.

Nada é verdadeiro, tudo é índice

O verdadeiro ângulo de atrito não existe. A verdadeira umidade também não. Em mecânica dos solos, nada é verdadeiro. Tudo é índice.

Nos episódios anteriores, nós conhecemos os grãos. Pedregulho, areia, silte e argila. Mil vezes de diferença entre o pedregulho mais fino e a argila mais grossa. Dez mil vezes entre os extremos.

E a curva granulométrica. A carteira de identidade do solo. Como vimos no episódio três, os grãos nunca estão sozinhos: entre eles há água e ar.

O modelo das três fases

Agora imagine que desse para separar um pedaço de solo nas suas três fases. Todos os grãos juntos, embaixo, sem nenhum vazio entre eles, toda a água junta no meio e todo o ar junto, em cima. Sólido, líquido e gasoso: os três estados físicos da matéria, juntos no mesmo pedaço de solo. Esse é o modelo das três fases. Ele não existe na natureza. É um jeito de enxergar o solo.

Pesos e volumes

Do lado esquerdo, os volumes. O volume total, o volume de sólidos e o volume de vazios, que se divide em volume de água e volume de ar.

Do lado direito, os pesos. O peso total, o peso dos sólidos, o peso da água. E o peso do ar? O ar ocupa lugar, mas quase não pesa. Perto dos outros, a gente despreza.

Tudo vira relação

Tudo o que vem daqui em diante são relações. Peso dividido por volume. Volume dividido por volume. Peso dividido por peso. Cada relação dessas ganha um nome e vira um índice físico.

E aqui entra a frase que dá nome a este episódio. Em mecânica dos solos, todos os parâmetros são apenas índices. Nenhum valor deste episódio, de todos os outros, de toda a profissão de geotecnia, é real.

Por mais cara de realidade que um número tenha, ele é um índice.

Feito para ser comparável

Isso parece um defeito. É uma escolha. Um índice não pretende ser a realidade. Ele pretende ser comparável. Se todo laboratório mede a umidade do mesmo jeito, na mesma estufa, na mesma temperatura convencionada, então eu posso comparar o solo de uma obra no Brasil com o de uma obra na Indonésia, em Gana ou no Japão. Nada significa nada individualmente. Mas relativamente, significa.

Os três grupos de índices

Os índices se organizam em três grupos. O grupo dos pesos específicos, o natural, o da água, o dos grãos e um tal de peso específico do solo seco, que ainda vai dar muita conversa nesta série.

O grupo dos vazios, a porosidade e o índice de vazios. E o grupo da água, o teor de umidade e o grau de saturação.

Só três têm ensaio próprio

São muitos índices, mas aqui vem a surpresa. De todos eles, só três podem ser determinados diretamente no laboratório. Só três têm ensaio próprio.

Peso específico natural

O primeiro é o peso específico natural do solo. É o mais severo de todos. Exige amostra indeformada, com preservação de umidade.

A amostra precisa sair do campo exatamente como estava na natureza. Não pode perder água por evaporação. Não pode ganhar água. Não pode amassar nem diminuir de volume. No laboratório, ela vai para a balança hidrostática.

Teor de umidade

O segundo é o teor de umidade. Esse é menos exigente. Pede apenas a preservação da umidade.

Pode escavar com pá, picareta ou trado, fechar num recipiente hermético, num saco bem vedado ou numa cápsula de alumínio bem tapada. E levar. Deformou? Não importa. A conversa aqui é só entre pesos.

Peso específico dos grãos

O terceiro é o peso específico dos grãos sólidos, medido num recipiente chamado picnômetro. Esse aceita a amostra deformada e nem pede proteção contra a perda de umidade. Só interessam os sólidos.

E todos os outros índices saem por relações matemáticas.

O truque do volume de sólidos igual a 1

E para deduzir essas relações, existe um truque elegante. A jogada é voltar ao modelo das três fases e chamar o volume de sólidos de 1. Uma unidade. Um metro cúbico, um centímetro cúbico. Tanto faz.

Na hora em que o volume de sólidos vale 1, o volume de vazios vira o próprio índice de vazios. O peso de sólidos vira o peso específico dos grãos. O peso de água vira esse valor multiplicado pelo teor de umidade.

O modelo inteiro troca de linguagem. Onde havia pesos e volumes, agora há índices. E dele saem todas as relações entre todos os índices físicos.

Eu meço três no laboratório. O peso específico natural, o teor de umidade e o peso específico dos grãos. Calculo o resto no papel.

Na prática, é sempre assim. Esses três eu meço, os outros eu calculo.

Os quatro índices

Os quatro índices desse modelo, um de cada vez. O índice de vazios: o volume de vazios dividido pelo volume de sólidos.

A porosidade: os mesmos vazios, agora divididos pelo volume total. O grau de saturação: a parte dos vazios que está ocupada pela água.

E o teor de umidade: o peso da água dividido pelo peso dos sólidos. O único dos quatro feito com pesos.

Próximo episódio

Fica então a pergunta que sustenta tudo isso. O índice mais exigente pede uma amostra indeformada. Um pedaço de solo arrancado da natureza sem mexer em nada, nem nos vazios, nem na água. Como é que se tira um pedaço do chão sem estragar exatamente aquilo que se quer medir? Essa é a história do próximo episódio.

Perguntas do episódio

O que fica respondido

O que é o modelo das três fases?

É um jeito de enxergar o solo, que não existe na natureza: separar um pedaço de solo nas suas três fases, com todos os grãos juntos embaixo, sem nenhum vazio entre eles, toda a água no meio e todo o ar em cima. De um lado ficam os volumes: o total, o de sólidos e o de vazios, que se divide em volume de água e volume de ar. Do outro, os pesos: o total, o dos sólidos e o da água. O ar ocupa lugar, mas quase não pesa, e o seu peso é desprezado.

Por que em mecânica dos solos nada é verdadeiro e tudo é índice?

Porque todos os parâmetros da geotecnia são índices, convencionados para serem comparáveis, e não para representar a realidade. Se todo laboratório mede a umidade do mesmo jeito, na mesma estufa e na mesma temperatura convencionada, o solo de uma obra no Brasil pode ser comparado com o de uma obra na Indonésia, em Gana ou no Japão.

Quais índices físicos têm ensaio próprio no laboratório?

Só três. O peso específico natural, o mais severo, exige amostra indeformada com preservação de umidade e vai para a balança hidrostática. O teor de umidade pede apenas que a umidade seja preservada e aceita amostra deformada. O peso específico dos grãos sólidos, medido no picnômetro, aceita amostra deformada e nem pede proteção contra a perda de umidade. Todos os outros índices saem por relações matemáticas.

O que é o truque do volume de sólidos igual a 1?

É voltar ao modelo das três fases e chamar o volume de sólidos de 1, numa unidade qualquer. Com isso, o volume de vazios vira o próprio índice de vazios, o peso de sólidos vira o peso específico dos grãos e o peso de água vira esse valor multiplicado pelo teor de umidade. O modelo troca pesos e volumes por índices, e dele saem todas as relações entre os índices físicos.

Qual a diferença entre índice de vazios, porosidade, grau de saturação e teor de umidade?

O índice de vazios é o volume de vazios dividido pelo volume de sólidos. A porosidade é o mesmo volume de vazios dividido pelo volume total. O grau de saturação é a parte dos vazios ocupada pela água. O teor de umidade é o peso da água dividido pelo peso dos sólidos, o único dos quatro feito com pesos.

Do episódio para o campo

Onde essa história vira trabalho

O peso específico natural exige amostra indeformada, e os índices físicos saem do laboratório. Estes são os serviços da Damasco Penna que fazem essa parte do trabalho.

Próximo episódio
EP 06

A amostra intacta

Como é que se tira um pedaço do chão sem estragar exatamente aquilo que se quer medir? A amostra indeformada.

Em breve no canal
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