Informe Técnico · Ed. 05Trilha Equipamentos

CPTu com sonda multifuncional em pilhas de estéreis e rejeitos

A investigação geotécnica é dinâmica por natureza: em campo, é frequente ajustar a campanha conforme o solo encontrado, mudando o tipo de perfuração ou de cravação. É por isso que operamos sondas multifuncionais há alguns anos. Este informe mostra o que o equipamento resolve num dos cenários mais exigentes das campanhas recentes: o ensaio CPTu em pilhas de disposição de estéreis e rejeitos (PDER), com um caso real de piezocone sísmico executado através de oito janelas de perfuração.

InícioInformes técnicosCPTu com sonda multifuncional
AplicaçãoCPTu profundo em pilhas de disposição de estéreis e rejeitos (PDER), bota-foras e depósitos com blocos
DesafioBlocos de rocha e camadas compactas alternados com camadas moles; horizontes impenetráveis ao piezocone
SoluçãoUma única sonda ensaia, desobstrui, reveste e coleta no mesmo furo
GanhoMenos colaboradores expostos aos riscos da praça e menor custo, com uma única mobilização
Caso apresentadoSCPTu profundo com oito janelas de perfuração (drill out)

1. O desafio da impenetrabilidade nas PDER

Um desafio recorrente nas campanhas recentes são as sondagens em pilhas de disposição de estéreis e rejeitos, as PDER. São maciços construídos, heterogêneos por natureza: camadas de rejeito fino e saturado se alternam com estéril compactado e blocos de rocha. O piezocone é o ensaio de referência para caracterizar as camadas moles dessas estruturas, mas a cravação para no primeiro horizonte resistente. Executado sem apoio de perfuração, o CPTu resulta em profundidades reduzidas e em perda de informação exatamente das camadas subjacentes que interessam às análises de estabilidade e de suscetibilidade à liquefação.

Insistir na cravação contra blocos também danifica o equipamento: a ponteira, os anéis de vedação e as células de carga do cone trabalham fora de faixa, e as hastes fletem. A resposta técnica é alternar cravação e perfuração no mesmo furo, com equipamento e equipe preparados para as duas operações.

Sonda multifuncional em operação em pilha de estéreis e rejeitos
Sonda multifuncional em operação em pilha de estéreis e rejeitos

2. De duas sondas para uma

Até então, o cliente resolvia esse cenário com duas sondas: um penetrômetro para o CPTu e uma sonda rotativa para a desobstrução das camadas impenetráveis. O arranjo colocava mais pessoas na praça de trabalho, mais expostas, e representava mais custo.

Com a sonda multifuncional, a desobstrução passa a ser feita pela própria sonda, que também realiza coletas nessas camadas. O ensaio, a desobstrução e a amostragem ficam concentrados em um único equipamento e em um único furo.

O ganho é duplo. Menos pessoas na praça significa menos exposição aos riscos típicos de uma estrutura de mineração: tráfego de equipamentos pesados, içamentos e movimentação de hastes e revestimentos. E uma única mobilização significa redução direta de custo para o cliente: menos transporte, menos diárias de equipe e equipamento, e cronograma mais curto, sem as esperas de remanejamento entre duas máquinas.

Equipe operando a sonda multifuncional
Ensaio, desobstrução e coleta concentrados em um único equipamento e um único furo

3. O ciclo operacional: cravação, perfuração e retomada

A sonda multifuncional reúne na mesma máquina a cravação estática do piezocone, a perfuração rotativa e a amostragem. Ancorada ao terreno, obtém a reação de cravação das próprias âncoras, sem depender de lastro. O cone avança a 20 mm/s, velocidade padronizada em norma. Quando encontra material impenetrável, a equipe recolhe o cone, perfura e reveste o trecho obstruído com a mesma sonda e retoma a cravação a partir da base do revestimento. O ciclo se repete a cada nova obstrução, até a profundidade de projeto.

1 · CRAVAÇÃO A 20 MM/S o cone para na camada impenetrável 2 · PERFURAÇÃO E REVESTIMENTO a própria sonda atravessa e reveste o trecho 3 · RETOMADA DO ENSAIO o cone volta a cravar abaixo do revestimento
Ciclo operacional da perfuração combinada: o processo se repete a cada nova obstrução, até a profundidade de projeto

O ciclo está registrado em vídeo, com a sonda multifuncional executando o ensaio em campo:

Ensaios CPTu com sonda multifuncional · vídeo da Damasco Penna
Ensaios CPTu com sonda multifuncional, em 2 minutos · assistir no canal da Damasco Penna no YouTube

4. Estratigrafia completa do furo

Há um ganho adicional: o solo ensaiado por CPTu é barriletado, ou seja, o avanço nas camadas é acompanhado de coleta com barrilete. Nos trechos impenetráveis, a perfuração pode ser executada recuperando testemunho do material que o cone não atravessa; nas camadas já ensaiadas, a mesma sonda coleta com barrilete ou amostradores dedicados.

O furo passa a entregar uma perfilagem contínua do terreno: dado digital do piezocone nos trechos cravados e testemunho físico nos demais, com classificação tátil-visual, granulometria e umidade que validam o perfil interpretado e sustentam retroanálises. É a estratigrafia completa da vertical.

5. O cuidado com a ponteira e a saturação

A operação exige atenção. Alternar entre desobstrução e cravação do piezocone no mesmo furo demanda um operador atento e experiente, para não danificar a ponteira do cone na transição entre as camadas. É esse cuidado que preserva a qualidade do ensaio ao longo de toda a vertical.

Nota técnica · saturação do elemento poroso

A confiabilidade da leitura de poropressão depende da saturação do elemento poroso do cone, feita em campo com glicerina desaerada sob vácuo antes de cada ensaio. Em furos com janelas de perfuração o cuidado é redobrado: a cada retomada, a equipe confere a saturação e as leituras de referência do cone antes de voltar a cravar.

Saturação do piezocone sob vácuo
Saturação do piezocone sob vácuo antes da cravação
Unidade de aquisição de dados em campo
Aquisição dos dados do ensaio em campo

6. O que o piezocone entrega nas camadas moles

As camadas de rejeito fino e solo mole entre os horizontes resistentes são justamente as que governam o comportamento da estrutura. Nelas, o piezocone fornece:

  • Estratigrafia contínua a cada 1 ou 2 cm: resistência de ponta (qt), atrito lateral (fs) e poropressão (u2), base da classificação por comportamento (SBT);
  • Resistência não drenada e estado do material, distinguindo comportamento contrátil e dilatante, insumo direto das análises de suscetibilidade à liquefação;
  • Ensaios de dissipação, que medem o regime de poropressões e o coeficiente de adensamento das camadas de interesse;
  • Velocidade de onda cisalhante (Vs) no módulo sísmico do SCPTu, da qual se obtém o módulo de rigidez a pequenas deformações (G0).

7. Caso real: SCPTu com drill out

O perfil abaixo é de um piezocone sísmico executado pela Damasco Penna em PDER, em outubro de 2025. As faixas DRILL OUT marcam as oito janelas em que a cravação foi interrompida por material impenetrável e o trecho foi perfurado e revestido pela própria sonda. Entre elas, o cone registrou resistência de ponta, atrito lateral e poropressão de forma contínua, incluindo a espessa camada de comportamento argiloso entre 13 e 22 m, caracterizada também com mais de vinte ensaios de dissipação ao longo do furo.

Perfil CPTu com faixas de drill out
Resistência de ponta, atrito lateral e poropressão ao longo de todo o furo · faixas cinza indicam os trechos perfurados (drill out) · dados anonimizados
Resistência de pontaqc até cerca de 35 MPa nas camadas competentes atravessadas
Atrito lateralfs descreve o comportamento do solo camada a camada
Poropressãou com mais de vinte dissipações nas profundidades de interesse

8. Ganhos em relação ao arranjo convencional

No arranjo convencional, o furo obstruído exige uma perfuratriz de apoio além do equipamento de cravação: duas máquinas, duas equipes e transferências de praça a cada obstrução. Com a sonda multifuncional, todo o ciclo acontece na mesma máquina.

AspectoArranjo convencional (duas máquinas)Perfuração combinada (sonda multifuncional)
MobilizaçãoEquipamento de cravação e perfuratriz de apoio, com transportes separados.Uma única máquina executa cravação, perfuração e amostragem.
Pessoas em campoDuas equipes na área, com maior exposição em estrutura de mineração.Uma equipe, menos pessoas expostas e praça mais enxuta.
CronogramaEspera e remanejamento de máquinas a cada obstrução.Transição entre cravação e perfuração em minutos, no mesmo furo.
ProfundidadeEnsaio frequentemente encerrado no primeiro horizonte resistente.Perfil completo até a profundidade de projeto.
AmostragemDepende da perfuratriz de apoio e de nova praça.Barrilete e amostradores na mesma campanha, no mesmo furo.
Custo para o clienteDuas mobilizações, mais diárias e mais transporte.Redução direta de mobilização, diárias e prazo.

9. Conclusão

A perfuração combinada com sonda multifuncional transforma o CPTu em terrenos obstruídos: o ensaio deixa de parar no primeiro bloco e passa a entregar o perfil completo da estrutura, com poropressões, dissipações e velocidade de onda cisalhante nas camadas moles e testemunho físico nos trechos impenetráveis. No caso apresentado, o piezocone sísmico atravessou oito janelas de perfuração e alcançou a profundidade de projeto, em uma única mobilização. Para o cliente, isso significa campanha mais rápida, menos pessoas expostas em campo, menor custo e uma caracterização geotécnica tecnicamente mais defensável.