Estivemos recentemente no PDAC 2025, um dos mais importantes eventos globais do setor de mineração, que reúne especialistas e empresas para discutir inovações, desafios e boas práticas.
Nesta edição, tivemos a oportunidade de participar do curso “Know Your Risks: Leadership in Exploration Health and Safety”. O conteúdo foi abrangente, abordando a gestão de riscos, investigações de acidentes, criação de cultura de segurança, entre outros temas.
Neste artigo, compartilho alguns insights desse curso, com ênfase nas discussões sobre a saúde mental dos trabalhadores nas atividades de sondagem e como temos abordado essa questão aqui na Damasco Penna Engenharia Geotécnica.
Sondagens e perfurações: atividades de alto risco
Um dos pontos discutidos no curso foi a elevada taxa de acidentes nos canteiros operacionais de sondagens e perfurações, altas quando comparadas a outras áreas da mineração.
São atividades de natureza dinâmica, realizadas muitas vezes em locais remotos, com uso de equipamentos pesados, partes móveis e condições adversas. Segundo dados do PDAC, no Canadá, estima-se que em 2023 43% dos acidentes nas áreas de mineração tenham ocorrido em atividades de perfuração ou relacionadas às sondagens.
Sabemos que garantir a segurança física é um desafio constante, mas a discussão foi além do óbvio: como os fatores psicológicos impactam diretamente a segurança e o bem-estar dos trabalhadores?
A saúde mental na mineração
Chamou nossa atenção o fato de que cerca de metade do curso, com duração de oito horas, tenha sido dedicada à discussão sobre o bem-estar psicológico no ambiente operacional. Pelo que nos foi apresentado, o tema ainda é relativamente novo por ali, mas tem ganhado cada vez mais relevância no Canadá e EUA.
Segundo dados compartilhados no PDAC 2025:
- 10% dos trabalhadores do setor mineral já cogitaram suicídio;
- 1 em cada 10 testou positivo para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
- a taxa de suicídio na mineração é mais que o dobro da média nos EUA.
No Brasil, esse movimento também começa a ganhar força. A NR-01, a partir de maio de 2025, passa a exigir o gerenciamento dos riscos psicossociais para as empresas. No entanto, cumprir protocolos será apenas o primeiro passo. Para nós, hoje a grande questão é: como podemos, de fato, transformar o ambiente de trabalho nas sondagens para promover a saúde mental dos colaboradores?
Modelo contínuo de saúde mental
Um conceito apresentado no PDAC 2025 que consideramos especialmente interessante foi o “modelo contínuo de saúde mental”.
Desenvolvido em parceria com o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, esse sistema busca facilitar o reconhecimento precoce de sinais de sofrimento psicológico, possibilitando a adoção de estratégias preventivas antes que a situação se agrave.
Além disso, o modelo enfatiza um ponto fundamental: “a recuperação é sempre possível”. Ele propõe que, com o suporte adequado, é viável restaurar o bem-estar e o desempenho em diversas áreas, como humor, sono, saúde física, vida social e redução de comportamentos de risco.
Esse conceito reforça a importância de olharmos para a saúde mental não como um estado fixo, mas como um processo dinâmico, que pode ser monitorado e aprimorado ao longo do tempo.
Acreditamos que esse modelo possa ser um ótimo ponto de partida para o monitoramento do equilíbrio emocional das equipes.
O tabu da fragilidade masculina
A sondagem é um ambiente predominantemente masculino e, assim como em outras áreas da construção civil, ainda carrega um tabu velado sobre expressar fragilidades ou problemas emocionais. Esse estigma muitas vezes impede que os trabalhadores busquem apoio, impactando diretamente sua saúde mental e a segurança no trabalho.
Acreditamos que o grande desafio aqui é humanizar as conversas e ter profissionais de liderança treinados e com características de lidar, com empatia, com as nuances de humor e saúde mental que os colaboradores possam apresentar.
Temos investido em treinamentos de conscientização, incentivando uma cultura onde pedir ajuda seja visto como um sinal de responsabilidade, e não de fraqueza. Também ampliamos nossos canais de apoio, que hoje são dois:
- Canal de comunicação e denúncias, que incentiva relatos sobre assédio e bullying;
- Canal específico para saúde, incluindo a emocional, onde os colaboradores podem buscar apoio profissional de forma simples e ágil.
Evolução na Sondagem
Os riscos psicossociais no ambiente de trabalho passam então a serem tratados com a mesma seriedade que outros riscos ocupacionais, como quedas, choques elétricos, exposição a agentes químicos e esmagamentos. Assim como adotamos protocolos rigorosos para prevenir e responder a esses perigos e risco, precisamos de um time preparado para lidar prontamente com os desafios da saúde mental.
Na prática, acreditamos que isso signifique identificar sinais precoces de sofrimento, criar um ambiente onde os trabalhadores se sintam seguros para buscar ajuda e estruturar medidas de apoio eficazes. A prevenção e o gerenciamento dos riscos psicossociais não são apenas uma exigência regulatória, mas um compromisso essencial para garantir um local de trabalho mais saudável, seguro e produtivo para todos.
Para um setor em que há algumas décadas atrás era normal sondadores terem as mãos mutiladas em acidentes do trabalho, é muito bom ver o quão rapidamente estamos evoluindo. O caminho ainda é longo mas já sabemos a direção a ser percorrida.
- Know Your Risks: Leadership in Exploration Health and Safety · PDAC 2025.
- The Mental Health Continuum Model (MHCM) · Government of Canada.
- NR-01 · Gerenciamento de riscos psicossociais · Brasil, 2025.
